Ao reler o poema da Alda Lara me veio à memória que todas as casas lá do meu bairro tinham umas sebes que serviam de muro para separar os quintais e que eram feitas de flores muito bonitas. Por altura da floração as nossas casas ficavam bué de bonitas, os mais velhos até pareciam mais contentes e o amarelo das nossas cubatas eram dum amarelo cor do sol.
Deixa-me te dizer que as bungavílias não serviam para separar os vizinhos pois existia sempre uma passagem onde nós os candengues podíamos passar para ir nas nossas brincadeiras e os kotas podiam ficar horas ali a conversar. As bungavílias serviam só mesmo para a nossa primavera ser mais alegre, o nosso sorriso ser mais aberto e conseguirmos aprender que havia uns jardineiros que cortavam e faziam as sebes com uma magia e um amor que ainda hoje está na memória da infância e que na nossa rua passavam mães negras que nos enchiam de sonhos e de raiva pela injustiça que muitos meninos, que elas ajudavam a embalar, lhe colocavam na sua dignidade depois de deixarem de ser meninos. Me sinto com orgulho de ter vivido e brincado entre as bungavílias do meu Huambo. São as bungavilias mais lindas do Planeta. Por isso me relembro a Alda Lara e um pouco do seu poema sobre as bungavílias vermelhas.
Pela estrada desce a noite
Mãe negra desce com ela...
Nem bungavílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos
em suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossa,
em duas faces cansadas.
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