sexta-feira, 19 de novembro de 2010

AS NOSSAS CORRIDAS

Esta semana se estivesse lá no bairro, nós os kandengues dávamos pulos de bué de satisfação. Sempre gostamos de corridas de automóveis e de fórmula 1. E a vitória do puto Sebastian Vettel no campeonato deste ano leváva-nos ao delírio. E por causa disso me veio mesmo à memória a pista que desenhávamos na varanda do Quim e do Casimiro para as nossa corridas de fim de dia. Tinhamos todos, no bairro e no Liceu, uma ídolo que brilhava no circo da fórmula one e que nos colava ao rádio a ouvirmos a reportagem. E como nós entristecemos o olhar quando o madieu resolveu partir depois daquele acidente brutal no Canadá. Gilles Villeneuve era mesmo de quem gostávamos e até tínhamos um grupo de fans. O seu filho Jacques ficou para quando nós começamos a fase de kotas.
Mas vamos voltar às corridas do bairro. Desenhávamos a pista no cimento da varanda com o giz da escola. Preparávamos os carros em casa, tirávamos suspensões, colocávamos as borrachas dos tubos da tinta da china nas rodas de trás para aumentarmos a aderência ao solo, pintávamos os bólides com as cores desportivas que víamos no automobile e lá íamos acelerar na pista. Aquilo tinha regras, nunca ninguém discutiu, não valia toques e era ver uma disputa feroz entre dinky toys e corgy toys. Eh pá, te juro com sangue de pacaça, melhor que estas corridas lá do bairro só mesmo as 6 horas internacionais do Huambo. Mas isso fica para outras núpcias. Laripo.




quinta-feira, 11 de novembro de 2010

11.11.1975

E a 11 de Novembro de 1975 no meu bairro não houve festa apesar de se assistir ao nascimento da minha eterna namorada, ANGOLA.

domingo, 31 de outubro de 2010

JORGE GALPÉRIN

25.10.2010 - Aos meus amigos do meu bairro e a todos os outros meus amigos. Hoje é um dia triste para quem teve como amigo do coração o Jorge Galpérin, argentino, cirurgião de formação e médico de família por devoção. A notícia chegou-me pela Sílvia, a sua mulher. A 25 de Outubro o Jorge tinha saído do Planeta Terra para parte incerta para descansar do seu sofrimento. Se amo Buenos Aires, o Boca, Maradona, Che Guevara, as mães de branco, Evita, Gardel, o tango, a Argentina foi o Jorge que me levou a essa paixão. Até sempre, hasta siempre meu eterno companheiro e um dia vem-nos visitar.

domingo, 24 de outubro de 2010

NA ESQUINA DA LELLO

Mano, te vou contar mesmo. Os kandengues lá do bairro se levantavam cedo, mesmo muito cedo, tipo seis da matina. O liceu não podia esperar e depois de um matabicho bué de fiche, aquilo era uma correria. Uns apanhavam o machimbombo, outros íam mesmo a penantes. Não que não houvesse o passe para ir como os outros mas ir a pé era descobrir coisas sempre novas.
Ali, ainda no bairro e no triângulo da manobra das máquinas dos comboios, subíamos ao estribo da Garrat, ou da Nona e era de boleia até à estação. Depois era atravessar a linha entrar no asfalto e ala que se faz tarde. Kambo para trás, atacávamos a esquina da Lello, descíamos até à livraria Académica, rua fora até ao largo do mercado Vicente Ferreira, depois, tipo bólide bê eme dabliu, a subir onde eles desciam nas 6 horas do Huambo, corta mato até ao Bairro Académico e depois avenida principal até ao Norton de Matos. Sim muitas das vezes fazíamos greve ao Sarmento Rodrigues, a escola comercial e industrial.
Muitas das vezes lhe ficávamos na Lello a ler as últimas novidades e a ouvir os discos que não tínhamos no gira discos do bairro ou na orquestra do Ferrovia, mas nunca atrasados ao Liceu. Outras vezes, noutras correrias, lhe levávamos uma bola, quase sempre de ténis, e a viagem era sempre mais curta pois não lhe recordávamos o trajecto que tínhamos que fazer fruto das brincadeiras e dos chutos que dávamos no destino feito bola de brincar. Te gosto meu Huambo.

sábado, 16 de outubro de 2010

CANHE

Yeah, tou aqui sem saber bem como vou hoje mesmo escrever sobre o meu bairro. Me esqueci de muitas estórias que ali vivi. Talvez cansaço, talvez mesmo só a falta de memória que começa. Mas as lembranças do meu Huambo faz-me sempre bem à mona e começo já, agora mesmo, a me recordar de bué de coisas boas que me aconteceram.
Então vou-te mesmo contar as minhas fugas, sim fugas porque menino branco não podia ir nesse local, ao mercado do Canhe. Nós os putos do bairro passávamos por ali quando íamos para o Ferrovia, mas passávamos no alcatrão bem longe do buruburinho do mercado, das cores, dos cheiros, das conversas, do povo, dos angolanos. Mais velhos começamos a nos desviar mesmo das regras estabelecidas e lá íamos nós entrar na confusão que amávamos. Como era bonito estar ali a ver tudo o que de belo tinha aquela gente e aquele mercado. Bem melhor que o Vicente Ferreira que nem sabíamos quem era o madieu.
Me lembro que não podíamos chegar junto do quintal do padre da igreja local. Nos disseram, boato? verdade?, que o padre tinha dois cães, pastores alemães claro, que estavam treinados a morder os negros, que eram ladrões e os amigos brancos dos pretos, que também eram ladrões e terroristas! Nem chegávamos por perto e aqui comecei a pensar que os servos de Deus não eram todos iguais e que no meu Huambo também havia locais proibidos para quem amava mesmo ele.

domingo, 26 de setembro de 2010

Porque hojé é domingo apetece-me lembrar dos domingos do meu Huambo e do que fazíamos nesse dia. Não era esperado com muita ansiedade entre nós a não ser os domingos à tarde. Sim, domingos à tarde, não pela música do Nelson Ned (O que é que você vai fazer Domingo à tarde?) mas porque tínhamos sempre futebol, os Kurikutelas ou o Mambroa, por vezes o Recreativo da Caála. Sim, porque nesse tempo havia futebol aos domingos à tarde.
Mas esperávamos por domingo porque a grande maioria dos putos lá do bairro andava na catequese ali na Sé do nosso Huambo. E a catequese servia como ponto de encontro para vermos e estarmos com outros amigos de outros bairros, sonharmos com namoros, brincarmos e até fazer travessuras que por vezes o padre da Sé, que não relembro o nome, não aprovava. Muitos ainda cantavam no coro da igreja. Bem isto foi até aos 14 anos porque depois começamos a questionar o que andávamos ali a fazer. Tudo o que fazíamos era pecado e se convertia em castigo divino. E nós deixamos de gostar que um simples olhar para uma garina mais gira se convertesse em três pai nossos e três avé marias e pecados mais calorosos como um beijo tivesse um imposto maior, uma salvé rainha. E aí a malta basou e nunca mais quis saber de catequese, missas ou coro de igreja. Mas a Sé ficou sempre na nossa memória.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

AS BUNGAVÍLIAS

Ao reler o poema da Alda Lara me veio à memória que todas as casas lá do meu bairro tinham umas sebes que serviam de muro para separar os quintais e que eram feitas de flores muito bonitas. Por altura da floração as nossas casas ficavam bué de bonitas, os mais velhos até pareciam mais contentes e o amarelo das nossas cubatas eram dum amarelo cor do sol. Deixa-me te dizer que as bungavílias não serviam para separar os vizinhos pois existia sempre uma passagem onde nós os candengues podíamos passar para ir nas nossas brincadeiras e os kotas podiam ficar horas ali a conversar. As bungavílias serviam só mesmo para a nossa primavera ser mais alegre, o nosso sorriso ser mais aberto e conseguirmos aprender que havia uns jardineiros que cortavam e faziam as sebes com uma magia e um amor que ainda hoje está na memória da infância e que na nossa rua passavam mães negras que nos enchiam de sonhos e de raiva pela injustiça que muitos meninos, que elas ajudavam a embalar, lhe colocavam na sua dignidade depois de deixarem de ser meninos.
Me sinto com orgulho de ter vivido e brincado entre as bungavílias do meu Huambo. São as bungavilias mais lindas do Planeta. Por isso me relembro a Alda Lara e um pouco do seu poema sobre as bungavílias vermelhas.

Pela estrada desce a noite
Mãe negra desce com ela...

Nem bungavílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos
em suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossa,
em duas faces cansadas.