domingo, 13 de fevereiro de 2011

SANGUITO

Hoje mesmo te vou escrever uma crónica ligeira do meu bairro. A malta lá do Huambo, madiês do mato como lhe chamavam os da cidade, tás a ver, quero dizer Luanda, começamos então a inventar como havíamos de dizer dos da capital. Não foi difícil, se eles tinham a mania que tinham sangua azul então, lá no bairro, lhe chamávamos sanguitos. Mas sabes mano não era só aos caluandas que lhe xingávamos com essa de sanguito. Aos maninhos que andavam a armar, que eram dos bairros ricos e que só conheciam o alcatrão, então também lhe pusemos o nome que os punham nas horas do diabo, sanguitos. E assim ía a nossa "luta de classes" no bairro mais lindo do meu Huambo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

4 DE FEVEREIRO

Considerado o início da luta armada, em Angola, o 4 de Fevereiro é uma das datas mais importantes da história do país das palancas negras.

Marca um momento fundamental no percurso que levou à independência e na tomada de consciência nacionalista do povo angolano. Foi, simultaneamente, um rude golpe que marcaria o principio do fim da ditadura fascista em Portugal.

Não sei se o meu bairro deu conta de que os patriotas angolanos estavam a fazer história e que a partir desta data nunca mais seria a mesma coisa na nossa Angola. Para que conste eu nesta data vivia no Luau (Teixeira de Sousa) e fui "transferido" pelos meus pais para Luanda onde, julgavam, tudo era mais seguro.

sábado, 8 de janeiro de 2011

ABRASA-ME

Ando eu aqui a surfar nas ondas das lembranças do meu cérebro e fico sempre com a nostalgia de ter esquecido se a paixão que o meu Huambo me provocou e que ainda me faz escorrer um pouco da água salgada dos meus olhos quando vejo o filme das brincadeiras do meu bairro, algum dia foi amor. Passam diante destes olhos onde escorre a água salgada da Restinga os carrinhos feitos de arame e de latas e caricas construidos por mãos de quem sabia muito mais do que nós mas que não frequentava a escola onde nos ensinavam umas tretas-tipo "do Minho a Timor". E fico sem ar para continuar a ler Ondjaki, Quantas Madrugadas tem a Noite, porque o Adolfo Dido do livro me diz que "tristezas, avilo, isso e muito mais... o passado, minhas lembranças mesmo, minhas solidões. a vida, muadiê, a vida é um antigamente só, e nós ficamos lá, cada vez mais pra frente vamos, e empurrados mas, quem, nós mesmo?, nós somos nosso próprio esquecimento - borracha do futuro a apagar o passado nas ardósias do presente". Também havia a lousa negra onde escrevíamos as redações que queríamos que escrevêssemos mas que apagávamos logo a seguir com o cuspo da raiva. E ama-se aquilo com que se cruza e é só talvez assim. Mas eu não me cruzei, nasci e vivi naquele caminho e abracei num tempo breve de pestanejar aquela terra que me abrasou.
Gosto de te dizer abrasas-me e partilhar contigo a troca do "c" pelo "s" que me permite ter uma intensidade de sentimentos e um gesto que também ele é intenso. E como eu te gostava de abraçar e ser abraçado por ti meu bairro, meu Huambo, e sentir a força do teu abraço numa entrega sem pudor a um aperto que me enchesse a alma. E a nossa intimidade aumenta quando as minhas recordações se aconchegam ao sabor das tuas cumplicidades reforçando a saudade que me destrói, o afastamento. E como não ando demasiado distraído ainda me apetece cantar "abrasa-me, abrasa-me muito, como se fosse esta noite a última vez..."

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MALANGATANA

Pintura é poesia. Também os poetas são mortais. O meu bairro mostra-se agradecido a Malangatana. Obrigado meu kota e até sempre.



domingo, 2 de janeiro de 2011

SÔDAD

Começamos a segunda década do século vinte e um e hoje acordei com saudades do meu Huambo que há trinta e cinco anos não me vê. Tenho saudades da minha casa, das bungavilias, do comboio, dos do meu bairro, do...
...do meu Kurikutelas campeão de futebol de 1974, campeão da liberdade. Das tardes de domingo em que o Ferrovia jogava à bola como só eles sabiam. Comecei a aprender coisas de sonho e de verdade, no meu bairro, no Ferrovia. O poema diz "Havemos de voltar". Será verdade?



domingo, 26 de dezembro de 2010

GASOLINO

Nesta época chamada de Natal confesso que lá no bairro nem nos lembrávamos que existia a festa. Talvez por estar proibida a coca-cola na capital do império, o pai natal no nosso Huambo era como nós queríamos, ou quase. Não havia o homem das barbas brancas vestido de vermelho a dizer hô...hô...hô, porque o calor era mais que muito, não havia renas, nem chaminés para o kota entrar. Então como faziamos para ter as recordações de um período que era universal, ou quase. O CFB resolvia o problema com uma festa de todos em que oferecia brinquedos aos filhos dos funcionários. Juntávamo-nos no Ferrovia e alguém distribuia presentes aos kandengues. Um dos que sempre me ficou na memória foi um barco de latão com corda, a que chamava gasolino, era masculino, e que deslizava pela banheira do meu encantamento. Então logo sonhava em ser marinheiro de ilusões, solidário dos mares e feitor de viagens em que aportava outros portos e outros mundos.
Esse ainda há pouco tempo fazia parte dos brinquedos que não estraguei. E era assim que fazíamos para "fingir" que havia Natal na nossa cidade. O meu Huambo tinha muito mais interesse que o Natal que era do asfalto e não o Natal de todos. Nunca mais chegava o tempo de irmos para o liceu!

domingo, 12 de dezembro de 2010

RUACANÁ

Talvez porque hoje é domingo e domingo à tarde as recordações na minha cabeça viraram-se para o cinema. Desde puto, muito cedo, eu e a malta lá do bairro juntávamos os tostões que nos davam e aos domingos corríamos a ver o cinema, matinés diziam eles, do outro lado do bairro, no Ruacaná. Atravessar a linha e em bandos de siripipis aí íamos nós. Foi lá que descobrimos que para além dos bons e dos maus ainda havia os vilões, nos apaixonamos por Catherine Deneuve, Liv Hulmann e até, quem diria, Annie Girardot. Sim porque ela nos disse que nós não bebíamos, não fumávamos (nhéu!!!), mas... talvez o primeiro beijo tivesse acontecido no Ruacaná. Por pouco me esquecia da Sophia Loren e da Romy Scheneider.
Sim mas também íamos aos filmes onde entrasse o Charles Bronson, o Jean Paul Belmondo, o Anthony Quinn, o Peter O'Toole, Marcello Mastroanni, Omar Schariff e tantos outros. Mas o que nos dava mesmo gozo eram os filmes do Cantinflas, Mário Moreno, e do Zorro. Até mesmo depois dos filmes tentávamos imitar so nosso heróis e nas brincadeiras de espada e capa muitas cabeças se abriram para além das flechadas que levávamos dos índios pois os nossos revólveres nem fulminantes tinham. Mas, dizer só, que não queríamos nada, quando as mamãs resolviam ir connosco às matinés, ver os filmes do Joselito e da Marisol. Já não éramos assim tão candengues para ver as lamechices dos madieu que eram mesmo para esquecer.
Como eram fixes as tardes de Domingo só ultrapassadas pelo futebol nos kurikutelas ou no mambroa e, quando mais velhos, pelas noites de cinema no Ferrovia. Sukuama, sangue de pacaça, te juro, eram mesmo bué estas tardes e o amor pelo cinema ficou e com saudades de voltar ao Ruacaná.