sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A KINGA

Como é que vamos falar sobre o Natal no Huambo se não havia mesmo neve, nem Pai Natal, nem pinheiros, nem mesmo brinquedos em muitas das casas lá do bairro. Sim, havia a afesta do Ferrovia para os filhos dos funcionários do CFB onde era mais uma festa. Mas isso são outras estórias para contar. O que é mesmo verdade é que nessa época bastava só mesmo um brinquedo para os olhos sorrirem e todos ficarem contentes. Era bom, não no 25 do doze mas no dia a seguir pois todos juntávamos o que tinha sido dado e brincávamos até ser noite.
Nesse Natal o Mané recebeu uma kinga, vermelha, linda de morrer e foi o encantamento total do bairro. Quantos de nós sabia pedalar naquele monstro, roda 26? Penso que ninguém. A partir daquela data, a vermelha, a melhor kinga do Huambo, serviu para muitos de nós aprender a pedalar nas picadas dos nossos sonhos, percorrer o asfalto e o pó dos bairros vizinhos, sabermos que existia mais mundo para além do nosso e ganharmos o gosto de pedalar até as pernas doerem. São João, Benfica, Comércio foram alguns dos bairros que fomos descobrindo como candengues das aventuras. Havia sempre tempo para cada um de nós dar uma volta. Começamos a aprender com a kinga, que era vermelha, a palavra solidariedade que perdurou para sempre.
Pena foi que o João Manuel da Conceição Barroso, o Mané para nós, tivesse deixado o nosso Huambo muito cedo, mesmo antes de Angola ser Angola.

domingo, 29 de agosto de 2010

CANA DE AÇUCAR

Aiué, você nem pensa como nós aguardávamos os dias em que os mais velhos nos traziam as canas. Era mesmo um dia de muita sorte. Os putos reuniam-se ali no quintal de um de nós, íamos lhe buscar a catana que tínhamos escondido com que descascávamos a cana, e zás! O verde duro da casca saltava como gafanhoto no capim, aquele miolo branquinho a escorrer água e açúcar ali a gulosar para nós e a saliva a formar-se em quantidades enormes para conseguirmos chupar a cana de açúcar. Dentada após dentada a cana ia-se sorvendo até ficar tudo reduzido a palha que depois deitávamos fora como viamos fazer aos outros candengues que por vezes matavam a fome e o desejo da ilusão de comida.
Aquele mambo de que o açúcar fazia mal aos dentes era só para enganar pois sempre que havia cana os do bairro faziam grandes pecados ao devorarem longos paus. O outro mambo era que não deviamos imitar nem fazer como os putos dos bairros pobres mas a malta não ligava e curtíamos a máxima que era "chupa que é cana doce". Se havia pecado da gula lá no bairro esse era nos dias em que chupávamos a cana.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

MAÇAROCA

Os putos lá do bairro eram mesmo fixes. Não é vaidade. É mesma uma realidade captada com a máquina de fotos de quem gosta de memorizar as imagens lindas de uma meninice vivida com alegria.
Mesmo fixes nós os putos simples do bairro. Quando te falo que éramos fixes digo-o porque os mais velhos que trabalhavam lá no Caminho de Ferro curtiam-nos mesmo. Na época da colheita do milho, ou até mesmo antes, os kambas traziam o melhor presente do nosso Huambo. Ainda no leite, nos diziam, eles nos traziam as maçarocas mais saborosas da mãe natureza. Lhe punhamos nas brasas do forno que aquecia a água lá das casas, nunca no fogão, deixávamos tostar como torradas, lhe barrávamos com a manteiga fresquinha e... Nossa Senhora da Muxima até parecia que estávamos a tocar aquele instrumento musical que os tugas chamavam de gaita de beiços. Só parávamos mesmo quando já não havia milho na visão de um dos nosso pecados, a alegria de saborearmos o melhor da nossa terra.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

ÓLEO DE FÍGADO DE BACALHAU

Uééééééééé! Nem sei porque te vou falar mesmo neste assunto. Mas apesar das más memórias te vou falar rápido pois é mesmo uma mukanda amarga e tem que ser falada a correr. Olha só, já nem me recordo se era uma vez no mês, se mais vezes, o que eu sei mesmo é que o tal milongo vinha lá de Benguela ou Lobito, já não tenho memória para dizer donde vinha, era comprado na lota do peixe pelos mais velhos e nós os kandengues tinhamos que aguentar a tomar aquela mistela. Fingíamos que não estávamos lá, mas as mamãs zelosas para que os seus filhos não ficassem raquiticos nos chamavam a plenos pulmões. Era hora de abrirmos a boca, fecharmos o nariz e duma vez só engolirmos o óleo de fígado de bacalhau. Era cá um arrepio que nem em pleno cacimbo existia. Outros corriam no capim e deixavam lá o óleo para ver se nascia bacalhau para a consoada. Bem, vos dizer só que nenhum de nós ficou com essa coisa do raquitismo e que muitos dos nossos nunca soube o que era essa coisa do bacalhau ou de ficar raquitico. Não há memória que alguém de nós tenha ido na Terra Nova buscar o bacalhau. O que nós gostávamos mesmo era do nosso Huambo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

CARRINHOS DE ROLAMENTOS DOIS


Pópilas! Já não recordava que tinha um blog dos recordares de kandengue. Mas meu kamba te vou agorinha mesmo falar do que lá no bairro todos tinhamos mas que não servia para nada. Era aqueles carrinhos que faziamos em casa ou nas oficinas do CFB, que lhe colocávamos uma tábua das caixas de sabão compradas lá nos Armazéns, umas rodas de rolamentos já marados, um cordel de sisal original e que depois precisávamos de alguém para empurrar porque a estrada do bairro era plana e não tinha descidas. Pois é mwadieu, tamos mesmo a conversar dos carrinhos de rolamento. Olha só, nem dava para fazer corridas, era mesmo só banga e menino do bairro tinha que ter os de rolamentos como os outros dos outros bairros.

Mas cá o puto ainda tinha tempo para ir na capital, lá mesmo em Luanda, e na rampa do Liceu Salvador Correia, acelerar como um doido pela estrada abaixo, estragar as sapatilhas nas travagens, rasgar alguns cotovelos e ficar espantado como muitos deles que estavam alí comigo travavam mesmo era com os pés e não faziam nada na sua pele luzidia. Pópilas como havia diferenças até nos extras dos carrinhos de rolamentos!

domingo, 13 de dezembro de 2009

LONGONJO

Após algum tempo fora, regresso ao meu bairro não para falar dele. Hoje desconsigo mesmo ter lembranças do bairro. Mas um artigo do meu amigo da cidade, Fernando Pereira, no Novo Jornal - Mutamba, nº 99, na coluna Ágora, trouxe-me ao andar onde guardo memórias um dos episódios que sempre me marcou pela vida. Devo começar por dizer que a foto deste blog é mesmo da Igreja do Longonjo!
Vamos também localizar o Longonjo onde passei muitas das vezes no mala do CFB e da qual não guardo nenhuma foto no sótão das lembraduras. Longonjo é uma vila e município da província do meu Huambo. Tem 2 915 km² e cerca de 91 mil habitantes. É limitado a Norte pelo município do Ekunha, a Este pelo município de Caála, a Sul pelo município de Caconda, e a Oeste pelos municípios de Ganda e Ucuma. É constituído pelas comunas de Longonjo, Lepi (aqui nasceu outra grande figura da medicina em Angola e Portugal, o cirurgião Fernando Martinho), Katabola e Chilata.
Mas o Fernando, o Pereira, trouxe-me ao de cima uma das estórias que vivi em candengue. Não recordo a idade, o local, a igreja, mas recordo a cena passada comigo na tal Igreja do Longonjo e o nome do sacerdote que tentava aliviar multidões, angolanos e portugueses, de demónios, bruxas e outros males do corpo mas que provinham, diziam, da alma e do espírito. Minha mãe, uma senhora temente ao seu deus, um dia resolveu que os meus males provinham de belzebus e tipos vestidos de vermelho, com chifres enormes e bafuradas de labaredas e fumos horrendos, e resolveu consultar o padre Lima que tinha a seu cargo a Igreja do Longonjo. Nada como um bom exorcismo para colocar-me de novo no caminho sagrado. Tarefa não conseguida pois não me parece que os demónios, mesmo os piores, se metam com os putos por mais reguilas que sejam. A cena marcou-me de tal maneira, que anos mais tarde tive muitas dificuldades em assistir ao filme O Exorcista, de William Friedkin, mesmo ao ar livre, no cinema Miramar em Luanda. Senti vários arrepios, medos, terrores, que fui mantendo ao longo do tempo e que me fez afastar de demónios, exorcismos, crendices e bruxas até aos dias de hoje. Não acredito em bruxas mas aceito, como dizem os ibéricos, que as há, há!
Obrigado ao meu amigo Karipande por me avivar a memória de uma estória, não do meu bairro, mas de alguém do bairro, eu mesmo, que utilizava o comboio para conhecer alguma coisa da minha Angola. O Padre Lima conseguiu, isso sim, exorcizar-me da memória um Longonjo que terá as suas belezas e os seus encantos, mas que tem a virtude sobrenatural de pertencer ao Huambo.

domingo, 8 de novembro de 2009

CAIXA DE MÚSICA



Era sem dúvida um dos objectos, colocado na cómoda do quarto de meus pais, que mais me fascinou enquanto miúdo. De cor preta, tipo ébano, bem envernizada, sem um pingo de pó, forrada a um pano vermelho, tinha uma bailarina vestida de branco que me encantava na sua dança repetitiva em frente de um espelho que projectava as ilusões de um conto de fadas. Penso que em muitas casas lá da minha rua havia muitas dessas caixas e muitos de nós sonhou com a bailarina das nossas vidas. Sei, também, que nenhum de nós deu em bailarino pois ter essa profissão não era coisa de macho. Mas para além dos sonhos que a bailarina me transmitia, a música era de uma tranquilidade que ainda hoje recordo. Apanhando toda a gente distraída, lá ia eu ao quarto de meus pais ouvir a música, ver dançar e sonhar com um mundo de encantar. Mas para além deste mundo de fadas havia uma realidade bem mais terrena na caixa de música. Eram as moedas de vinte e cinco tostões que a mãe por vezes lá colocava, tipo mesada, ou por lá se esquecia, digo eu. Quando havia lá a moeda para além dos prazeres da caixa musical, nesse dia no Liceu tinha merenda reforçada. Uma Coca Cola e um pastel de nata, um manjar dos deuses. Assim foi durante anos.

Hoje nas minhas viagens, com outras músicas, outros bailados, verifico que há um programa na Antena 1 que me faz sentir outra vez candengue e regressar ao passado do meu Huambo. Chama-se Caixa de Música e por acaso do destino quem o apresenta, quem é responsável pelo programa, chama-se, só, Augusto Fernandes. Maldito (!), ou será bendito (?), destino.